Blog Ponto e Virgula

Dias de Coringa…

Glicia Manso


A história da loucura sempre esteve sedimentada entre a genialidade e o bizarro; atravessando a história da humanidade causando incômodos e oportunismo quando se faz conveniente aos desmandos daqueles que sempre detêm o poder.
Vidas amontoadas como entulhos nos grandes manicômios higienistas, sonhos pisoteado, vidas a morrer em vida… mas essa é uma história já conhecida, muito se falou e se escreveu sobre ela, no passar dos tempos.
O que me move nesses nossos dias vividos, são os atos e fatos que tal como no filme se repetem em nossa sociedade, e por isso os nomeei de “dias de Coringa”.
Fato é que, há poucos dias desembarcou em terras brasileiras, o filme Coringa, antes mesmo que aqui chegasse produziu várias e contraditórias opiniões, prós e contra, falas como “esse filme é muito violento!”. A censura chegou mesmo a cogitar sobre sua proibição com medo que o mesmo pudesse incitar uma rebelião nas massas populares.
Inicialmente pensei se tratar de uma produção que desse continuidade às histórias de heróis e vilões produzidos pela Marvel.
Movida pela curiosidade fui assistir ao filme na verdade por 3 vezes. Fiquei encantada com a produção do filme, cenários, figurinos, trilha sonora, (coisas passíveis de acontecer diante da minha formação em linguagem visual).
Mas o que realmente me encantou foi a ousadia do autor, desmascarando- nos bem ali, com os olhos ávidos diante da tela, cenas conhecidas da vida real.
No filme desfila sob o nosso olhar a loucura que nos habita, por trás do emblemático Coringa, todas as variações e variantes da loucura implícita e explícita dentro da telona a se diluir na platéia. O filme esfrega na cara de nossa polida sociedade, não mais o “dito louco” com sua herança genética, traumática e ou tantas outras causas, que se queiram dar para legitimar a patologia! Não! agora ali estava a loucura produzida, consentida, incentivada e coletiva fruto do descaso, desrespeito, preconceito, ganância, falta de acolhimento e exclusão; estava ali diante dos olhos, a loucura nossa de cada dia. Então pensei, nesses longos anos trabalhando na saúde Mental, pude ver e conviver com a doença em seus vários matizes, vi muitas dores, devaneios e delírios, mas nunca me encontrei com a loucura!! Lá dentro estavam apenas doentes e suas dores; A grande perniciosa e perigosa LOUCURA, sempre esteve fora dos muros, na vida, onde estamos todos mergulhados.
É hora de se pensar, qual o grau de nossa loucura?
O que fazemos conosco? O que fazemos ao outro?
O que nós enquanto sociedade abominamos sem dó?
E o que aplaudimos por mais bizarro que seja até virar Ibope?
Estamos sempre muito ocupados a vigiar, julgar e punir tudo o que está fora de nós, assim como nos empenhamos a mostrar ao mundo uma idealizada imagem ,heroica e bem sucedida de nós próprios.
Esse filme veio em boa hora, um grande evento, um convite a reflexão.
Faço aqui uma analogia do nome coringa, com a carta do baralho “curinga”, onde sempre quem tem o “curinga” define o jogo e pode dar o cheque mate!
Será que ainda podemos virar esse jogo, revisitando as nossas, e as loucuras outras, com múltiplos olhares?
É hora de se repensar o que deixamos que façam com nossas vidas,e mais que isso, o que fazemos com a vida do outro.
Aceitar o diferente e as diferenças passa primeiro pela auto aceitação, e essa só se dá através do auto conhecimento. Só dessa forma podemos nos reinventar, fazer ressurgir nossas humanidades, a empatia perdida, acolhendo nas palavras de Maturana, o outro, o legítimo outro com sua identidade única.
Assim se colocando no lugar do outro, talvez seja ainda possível materializar a utopia de uma vida melhor, mais justa e solidária para todos.
Enquanto a violência, a desigualdade e toda sorte de misérias forem encaradas com naturalidade e estiverem presentes em nossos dias, todos seremos culpados!
Que cada um de posse do seu “curinga” trabalhando na consciência de si, possa virar esse jogo…
Porque a única certeza que temos caros amigos;
É que a loucura nos habita!
Mas o problema é quando ela nos possui!

Glicia Manso

Fundadora e Coordenadora Pedagógica Geral.